Desigualdade de gênero perdura na ‘dupla jornada’ doméstica, indicam dados do IBGE

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Mulheres brasileiras gastam quase o dobro de tempo em afazeres domésticos e cuidados com família em comparação aos homens

Especialistas alertam sobre a persistência da desigualdade de gênero no contexto doméstico e familiar, que resulta em uma ‘dupla jornada’ não remunerada para as mulheres. Segundo dados recentes do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), as brasileiras dedicam quase o dobro do tempo dos  homens às atividades domésticas e cuidados com a família, com uma média de 21,3 horas semanais para as mulheres em comparação com 11,7 horas para os homens.

A demógrafa e pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Glaucia Marcondes ressalta que, apesar das transformações nas famílias e na vida das mulheres, a responsabilidade pelas tarefas domésticas e cuidados familiares ainda recai majoritariamente sobre elas. Mesmo com maior inserção no mercado de trabalho e contribuição fundamental para a renda familiar, as mulheres continuam sendo as principais cuidadoras, o que causa a sobrecarga. “Se não as tira do mercado de trabalho temporária ou permanentemente, continua a impor limitações, seja para seu desempenho e progresso profissional, seja para seus projetos familiares, como cobranças sobre o exercício da maternidade, decidir ter filhos”, analisa a especialista. 

Já Andrea Lopes da Costa, socióloga e professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), destaca que mulheres que conseguem se sobressair  no ambiente profissional ou acadêmico, ao mesmo tempo em que assumem as responsabilidades domésticas, enfrentam obstáculos que prejudicam seu desempenho fora de casa. Muitas vezes, são limitadas a atuar apenas como donas de casa, o que gera consequências negativas secundárias.

O governo federal criou um grupo de trabalho (GT) para desenvolver a Política Nacional de Cuidados. A secretária Nacional de Cuidados e Família, Laís Abramo, uma das coordenadoras do GT, enfatiza a importância da ação governamental para transformar essa realidade e garantir o direito ao cuidado para todas as pessoas que necessitam. Além disso, o plano busca reconhecer, valorizar e redistribuir as responsabilidades de cuidado entre famílias, comunidades, empresas e governos. O grupo tem um prazo de seis meses, prorrogável por mais seis, para apresentar uma proposta concreta.

A agenda do GT também engloba questões como o aumento das vagas em creches, a ampliação do horário da educação infantil e o fortalecimento da assistência a idosos. A secretária acrescenta que a abrangência da Política Nacional de Cuidados se estenderá à realidade dos trabalhadores remunerados, incluindo empregadas domésticas e cuidadores de idosos, buscando diminuir a fragilidade associada a essas ocupações.

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